Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

areaardida

areaardida

Carta aos jovens da minha terra

Jovens da minha terra:

 

Dirijo-me a vós, os poucos que ainda há, de coração aberto, a pensar no vosso futuro e na nossa, dos mais velhos, merecida ruína. Fomos nós, ao erigir e sustentar este lamaçal a que ainda insistem em chamar democracia, os causadores da vossa actual situação. É verdade, fomos nós, os do é proibido proibir de Maio de 68, os enlameados de Woodstock, os amputados da guerra colonial, os cantores dos hinos de Dylan, os sonhadores do 25 de Abril, fomos nós, repito, os únicos causadores disto tudo. Mea culpa...Gerámos a geração (parece redundante, mas não é) dos yuppies, o neo-ultra-liberalismo, o consumismo hedonista, marca maior do nosso tempo. Deixamos-vos o terrorismo, o aquecimento global, a mediocridade quase sem excepção dos líderes mundiais. Gerámos o monstro escondido na aparência da normalidade, Dr.Jekyll e Mr. Hyde,

E por aqui, no culus mundi, como lhe chamava, às vezes, o Abade? Por aqui, monstro informe, medonho, invencível, criámos, e mantemos, digamos assim, a pão-de-ló, o Poder Local. Devo advertir-vos que o conceito para mim é amplo, englobando tanto os órgãos e instituições do Estado, central ou local, como as ramificações do Poder, económico, partidário mais do que político, organizacional, funcional, até pessoal. São as baronias e os seus barões, as cortes e os seus cortesãos, as capelas e os seus sacristães, as fartas prebendas e as simplórias mordomias que a alguns já bastam. Ora toda esta organização comanditária, para ser brando nas palavras, inça no longo pousio da democracia representativa como grama em terra de bom cultivo, abandonada por súbita febre de corrida a ouros de fachada. Domina tudo, controla tudo, dispõe de tudo. Até à destruição final!

Apelo, pois, a vós, os poucos que ainda há! Ah, mas não para vos pedir que fiqueis, que deiteis mão a isto. Seria pedir de mais! Dirijo-me a vós para que fujais. Sim, fugi! Depressa! Deixai os nossos responsáveis pela coisa pública acabar com isto, marchando à frente dos governos, centralistas ou regionalistas, patetamente alegres, em bicos de pés (são todos a dar para o baixote...), alguns de gatas, que já não há coluna vertebral que os sustente direitos, alguns de cócoras. Fugi! Aqui não há futuro, só há IMI. Aqui não há esperança, só há parquímetros, multas, chico-espertice, cinismo, ainda por cima provinciano e matreiro. Aqui só há pose, ideias-feitas, vistas curtas. Aqui só há sonâmbulos da cidadania, próceres da mediocridade, aos gritos, a ver se alguém os leva a sério. Para além disto, aqui não há nada. Fugi! A sete pés, de carro, de avião, de comboio, que já não há! A pé, ao pé-coxinho, mas fugi, pelo amor de Deus! Vós sois jovens, ainda sonhais, esperais, credes. Antes que sejais velhos, cobiceis, amocheis, desespereis, fugi! Gritai aqui d’el rei, chamai a polícia, os bombeiros, as autoridades que restam, que ainda há! Mas é fugir! Nós cá ficamos, a comissão liquidatária, a espécie rara que vai ser preservada, como o burro mirandês. Não tarda tiram-nos dois dentes da frente, amarelecem-nos as chavelhas restantes, põem-nos o chapéu de feltro, a samarra e os socos ferrados a brocha, um cajado na mão. Dão-nos um burro. E criam um parque natural para nos proteger como a qualquer outra espécie em vias de extinção. Depois organizam excursões de turistas que nos vêm tirar fotografias com os dois filhos encavalitados, um no burro, outro em nós próprios, chamando-nos espécie autóctone. Rimo-nos, alvares e agradecidos, tiram a fotografia – e têm uma aventura para contar o resto dos seus dias.

Nós, na reserva, recolocamos a placa dentária, recebemos o subsídio, e vamos votar, de tempos a tempos, nos nossos representantes, que um dia feliz se hão-de, também eles, extinguir. FUGI!!!

 

 

 

o centrão nem é carne nem é peixe, antes pelo contrário

O centrão, Aqui como no resto do país, é a epifania da mediocridade. Era impossível a alguém juntar tanta em tão pouco espaço. Este é um dos milagres maiores desta coisa a que, não sem alguma ironia, se vai chamando democracia. Mediocridade! Ninguém imaginava haver tanta, aos montões, às pazadas, às carradas. É uma praga maior do que a grama, as silvas ou o escaravelho da batata. É omnipresente e omnipotente. Inça como as pragas malfazejas, espalha-se como as notícias más, desenvolve-se como os vírus malsãos. Num instante toma o corpo social, insidiosamente pela aparência democrática do voto, para o devorar protegida pelo escudo das instituições e da lei. É fina, mais que inteligente. É guicha, mais que competente. É vivideira, mais que produtiva. É estúpida. Usa meia branca, sacola e old spice. É medíocre.

Ocupa o espaço público concertadamente, por um mecanismo orgânico de adaptação e selecção darwinianas que visa a sua preservação e o domínio do seu biosistema. Divergiu em duas famílias da mesma espécie. Aparentemente digladiam-se, mas ambas sabem que a sua sobrevivência depende do funcionamento alternado do sistema: ora agora mando eu, ora agora mandas tu.

Senão veja-se o caso de Aqui. Já todos sabemos, em ano de alternância, quem vai para os cargos. Se ganha a família, digamos assim, A, Fulano vai para aqui, Sicrano vai para ali, Beltrano vai para além; se ganha a família B, Arrebunhano vai para além, Contralbano vai para ali, Santulhano vem para aqui. Sem risco de nos enganarmos. Quem paga as favas, sabemo-lo todos, é o Aldeano. Ou, no dizer certeiro de Mário de Carvalho, o Manuel Germano (já lá vamos...).

Já se disse que é burro. Apesar do mestrado e (até!!!) do doutoramento. Cita lugares comuns que atribui, sabe-se lá porquê, a Churchil (como disse Churchil... e nunca ninguém que leu Churchil lá viu tal coisa) ou ao Outro. De Wilde e de Shaw, onde poderia ir largamente munir-se de ditos, nunca ouviu falar. No anedotário substituiu Bocage pelo “português”, adora o non-sense básico do “alentejano”. É básico. Não sai daquilo. Anquilosou, estagnou, petrificou. A verdade, é que não dá para mais. Sabe distinguir concelho de conselho, mas diz que foi ele que espoletou a situação. Pede  desculpa pelo pleonasmo - a que também chama, aliás certeiramente, redundância -  mesmo quando o não há. Aprecia o carrascão, e frio. O bom restaurante é onde “encha os focinhos de chicha”. Arrota. Assoa-se ruidosamente. Tem gota. Pertence à direcção de uma instituição sem fins lucrativos.

(Pode continuar, que isto é um manancial inesgotável).

Quanto a Manuel Germano, Mário de Carvalho o disse e muitíssimo bem, é com o que o tal confunde Género Humano.

A direita sacristia

A direita, aqui, é bronca e tresanda a sacristia. Gostava muito da Outra Senhora, de quem tem saudades, mas, circunstâncias do tempo obligent, travestiu-se de democrática. Toma a cor que lhe convém camuflada na árvore da democracia onde se alimenta da incauta bicharada que, na boa-fé, a frequenta. Podia chamar-lhe, por isso, também, direita camaleão. Mas prefiro sacristia. Porquê? Porque é vê-la na missa das seis, a comungar, a bocejar, a olhar discretamente para o relógio quando o senhor cónego se alonga na peroração da homilia; é vê-la na procissão do Corpo de Deus, ao pálio, enfatuada e aprumada, saudosa do tempo em que a cidade inteira parava para ver; é vê-la nas oficinas da oração, na batota da Senhora da Serra, na Via-Sacra da Semana Santa, no comício de apoio ao Candidato, onde, às vezes, levada por entusiasmo genuíno, se despe da pose democrática e deixa ver, despudoradamente, digamos assim, as partes pudendas que mostram, inequivocamente, o seu verdadeiro género.

Cheira intensamente a sebo de vela e discretamente a perfume barato. Tem um fraco por batinas. Reza antes e depois do, infelizmente biologicamente necessário e inelutável, acto sexual com a esposa legítima. Com a outra - que tem, ou procura sofregamente por razões óbvias, às escondidas, pensa, de Deus - é um animal feroz, desbragado e fetichista até dizer chega. Olha a liberdade dos outros, sobretudo dos jovens, com raiva de frustrado; “revolta-se” com a “pouca vergonha a que isto chegou”, mas, às escondidas, vê os canais X do cabo e navega gulosamente pelos bordéis cibernéticos da net. Cheira a mofo. Tresanda a naftalina. Fede a vício privado e a virtude pública.

Lê o Mensageiro, o Diabo e a Dama das Camélias. Nem tão mal. Sempre é ler. Não tem um autor moderno. A mais culta já tentou Chardin, mas desistiu porque não entende. Confunde Marx com o diabo, que nunca viu, nem a um nem a outro: ambos são mitologia da alma. Ainda ouve a Amália dos caracolitos e espanholitos, adora Tony Carreira e o padre Borga. Ainda se revê nos “grandes feitos” da raça, na gesta lusitana (a que lê continua a eliminar dos Lusíadas o canto X). Abomina o Marquês, a I República, o 25 de Abril. Abomina, no fundo, a liberdade, sobretudo a dos outros. Acendia as fogueiras purificadoras não fora, apesar de tudo, o Estado de Direito.

É muito? É pouco. Sociologicamente daria um tratado.

A esquerda salpicão

Em Bragança não há esquerda caviar. Quando muito, existe uma esquerda salpicão. Apresenta-se como sendo ovas, mas ovas de cavala, ou de safio, quando muito de pescada do alto. Eu prefiro chamar-lhe salpicão, o caviar do fumeiro. Mas então não há esquerda, em Bragança? Há. Mas esta de que falo fica muito à direita de qualquer esquerda de jeito. Senão vejamos.

É intelectual, possui uma licenciatura ou mais, emprego do estado ou afim, veste Boss e usa mala Louis Vuitton. O perfume depende, mas ainda há quem use o velhinho Aramis, e até o Chanel 5, essa bomba que derruba um touro a cem metros de distância. No Verão calça chinela de couro e põe sacola à bandoleira. Faz férias pela Europa, carotas mas de assegurado impacto sócio-cultural (não sei se me faço entender...). Ainda põe o cravo e ouve o Zeca, mas só no 25 de Abril. Vai ao teatro municipal apanhar secas e mostrar-se.

Acha que cultiva o bom gosto. É alternativa q.b.. Habita, ou gostaria de habitar, na zona histórica. É culta porque lê Saramago. Vagamente já ouviu falar de Marx. Desiludiu-se com a classe operária, que vê com incómodo evidente, em chusmas, a passear ao domingo, de fato de treino, num centro comercial do Porto. Vai fazer compras ao Porto.

No resto, também se cumprimenta com um só beijo, exibe o carro anos 60 – e usa a bota de carneira e a saia rodada que fizeram história.

Arma-se ao pingarelho, é pindérica. É ecologista e nunca plantou uma árvore. Faz da lagartixa de rabo azul e do rato de Cabrera fetiches intelectuais, mas depois queixa-se da falta de água, quando ela falta, e da estrada para Vimioso, quando, raro, lá vai. É contra a barragem do Sabor e a favor do Azibo, de que já foi fervorosamente contra. Deixem naquela aparecer a lontra...

Fuma charutos. A mais cultivada aderiu ao Bloco e defende as causas fracturantes. Tem pedigree, fantasiado, mas pedigree. Cultiva a desilusão e o cinismo ideológico. Porque é chic. Porque é de esquerda. Esquerda de quê?

A comunicação social local

A comunicação social local é uma galdéria. Vive amancebada (por cá, mais prosaicamente diz-se aputada) com o poder. O poder (político, económico, religioso, ...) mantém-lhe casa posta e as extravagâncias de mulher da vida. A contrapartida é a sua disponibilidade para tudo. É a acompanhante de luxo ou a rameira de estrada de quem lhe satisfaz os caprichos, que se resumem praticamente em mostrar-se, sair, exibir os panos de mau gosto e o pechisbeque barato dos adornos de fantasia. Excepção feita a uma ou outra jóia verdadeira que, por engano ou por generosidade, alguém, de boa fé, lhe oferece. Usa saia curta na ilusão de seduzir o incauto cidadão. Mas a perna escanzelada, com a sua nódoa negra de mau trato suspeitoso, afasta, por mais carente, o homem de bom gosto. Coxeia ligeiramente.

Carrega desastradamente na base, no blush, esborrata rímel a granel, usa batom rosa-choque, pinta a madeixa de laranja vivo. Sua do sovaco – e no Verão incomoda. O cinto de argola dourada ou pele de imitação estreluz-lhe na anca abundante, relevando barriga que tenta disfarçar como pode as comezainas à borla (que plebeísmo   ! Mas, dado o tema, espero que não se note muito). Cai-lhe a unha artificial, de quando em vez, na sopa do poder. Este enoja-se, nas come. Precisa dela. E, bem vistas as coisas, até nem se dão mal, há afinidades, passa a corrente. Lá amor...

Falta-lhe um dente quando ri, assiste ao programa da Júlia e segue a novela das nove. É doméstica, no sentido antigo da palavra. Dói-se dos pobrezinhos, acha muita graça à tradição, comove-se com o espírito do Natal e, por isso, manda muitos postais de boas-festas onde lhe chama quadra festiva. Apresenta o nabo gigante em forma de falo e a vitela que nasceu com cinco patas como a grande notícia da respectiva região, e ninguém sabe onde vai buscar a burra, a velhinha e o molho de lenha com que ilustra a peça sobre os rigores do clima. Eu, que há anos preciso de fotografar tal conjunto, não encontro um por mais que corra. Em pequenina ganhou o hábito de chuchar no dedo. E embora agora já não chuche, ficou-lhe o tique.

Às vezes encontro-a, por acaso. Mas fujo-lhe como posso. Safa!.

 

Carroças

Um escritor português da moda diz: "A natureza, aliás, não tinha história, tudo se repetia; os elementos concretos da paisagem ainda não tinham inventado a roda, ainda andavam de carroça, enquanto os homens, esses, já há muito tinham construído aviões de grande velocidade."

 

Que carroças sem rodas seriam estas onde "os elementos concretos da paisagem" andavam durante a não-história da natureza? Pergunto eu e pergunta qualquer um que perceba alguma coisa de carroças. Quem faz o favor de me explicar?

 

(Sobre os aviões falaremos mais tarde).

Mais sobre mim

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Favoritos

Arquivo

  1. 2014
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2013
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
Em destaque no SAPO Blogs
pub