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areaardida

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Carta aos jovens da minha terra

Jovens da minha terra:

 

Dirijo-me a vós, os poucos que ainda há, de coração aberto, a pensar no vosso futuro e na nossa, dos mais velhos, merecida ruína. Fomos nós, ao erigir e sustentar este lamaçal a que ainda insistem em chamar democracia, os causadores da vossa actual situação. É verdade, fomos nós, os do é proibido proibir de Maio de 68, os enlameados de Woodstock, os amputados da guerra colonial, os cantores dos hinos de Dylan, os sonhadores do 25 de Abril, fomos nós, repito, os únicos causadores disto tudo. Mea culpa...Gerámos a geração (parece redundante, mas não é) dos yuppies, o neo-ultra-liberalismo, o consumismo hedonista, marca maior do nosso tempo. Deixamos-vos o terrorismo, o aquecimento global, a mediocridade quase sem excepção dos líderes mundiais. Gerámos o monstro escondido na aparência da normalidade, Dr.Jekyll e Mr. Hyde,

E por aqui, no culus mundi, como lhe chamava, às vezes, o Abade? Por aqui, monstro informe, medonho, invencível, criámos, e mantemos, digamos assim, a pão-de-ló, o Poder Local. Devo advertir-vos que o conceito para mim é amplo, englobando tanto os órgãos e instituições do Estado, central ou local, como as ramificações do Poder, económico, partidário mais do que político, organizacional, funcional, até pessoal. São as baronias e os seus barões, as cortes e os seus cortesãos, as capelas e os seus sacristães, as fartas prebendas e as simplórias mordomias que a alguns já bastam. Ora toda esta organização comanditária, para ser brando nas palavras, inça no longo pousio da democracia representativa como grama em terra de bom cultivo, abandonada por súbita febre de corrida a ouros de fachada. Domina tudo, controla tudo, dispõe de tudo. Até à destruição final!

Apelo, pois, a vós, os poucos que ainda há! Ah, mas não para vos pedir que fiqueis, que deiteis mão a isto. Seria pedir de mais! Dirijo-me a vós para que fujais. Sim, fugi! Depressa! Deixai os nossos responsáveis pela coisa pública acabar com isto, marchando à frente dos governos, centralistas ou regionalistas, patetamente alegres, em bicos de pés (são todos a dar para o baixote...), alguns de gatas, que já não há coluna vertebral que os sustente direitos, alguns de cócoras. Fugi! Aqui não há futuro, só há IMI. Aqui não há esperança, só há parquímetros, multas, chico-espertice, cinismo, ainda por cima provinciano e matreiro. Aqui só há pose, ideias-feitas, vistas curtas. Aqui só há sonâmbulos da cidadania, próceres da mediocridade, aos gritos, a ver se alguém os leva a sério. Para além disto, aqui não há nada. Fugi! A sete pés, de carro, de avião, de comboio, que já não há! A pé, ao pé-coxinho, mas fugi, pelo amor de Deus! Vós sois jovens, ainda sonhais, esperais, credes. Antes que sejais velhos, cobiceis, amocheis, desespereis, fugi! Gritai aqui d’el rei, chamai a polícia, os bombeiros, as autoridades que restam, que ainda há! Mas é fugir! Nós cá ficamos, a comissão liquidatária, a espécie rara que vai ser preservada, como o burro mirandês. Não tarda tiram-nos dois dentes da frente, amarelecem-nos as chavelhas restantes, põem-nos o chapéu de feltro, a samarra e os socos ferrados a brocha, um cajado na mão. Dão-nos um burro. E criam um parque natural para nos proteger como a qualquer outra espécie em vias de extinção. Depois organizam excursões de turistas que nos vêm tirar fotografias com os dois filhos encavalitados, um no burro, outro em nós próprios, chamando-nos espécie autóctone. Rimo-nos, alvares e agradecidos, tiram a fotografia – e têm uma aventura para contar o resto dos seus dias.

Nós, na reserva, recolocamos a placa dentária, recebemos o subsídio, e vamos votar, de tempos a tempos, nos nossos representantes, que um dia feliz se hão-de, também eles, extinguir. FUGI!!!

 

 

 

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